“O médico não acreditou que eu tivesse contaminada”: gênero e relação médico-paciente na experiência da Aids

Palavras-chave: História das doenças, HIV/Aids, Gênero

Resumo

O artigo tem como objetivo analisar a relação médico-paciente na experiência narrada da soroposi-tividade na autobiografia “Depois daquela viagem”, de Valéria Piassa Polizzi (1997). Minha hipótese central é de que o enfrentamento do diagnóstico e a elaboração da experiência com a Aids foi mediada e influenciada pela relação de poder entre os médicos e a paciente. Nesse sentido, ganham relevo os estigmas e a moralidade presentes na representação social da Aids desde os primeiros anos da epidemia, bem como alguns elementos historicamen-te associados ao gênero feminino.

Referências

ARAUJO, Lucinha. Cazuza: só as mães são felizes / Lucinha Araújo em depoimento a Regina Echeverria. São Paulo: Globo, 2001, p. 273-284.

BARATA, Germana Fernandes. A primeira década da Aids no Brasil: o Fantástico apresenta a doença ao público (1983-1992). 196f. Mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo. São Paulo, 2006.

BESSA, Marcelo Secron. Os perigosos: autobiografias & AIDS. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

BIEHL, João. Antropologia no campo da saúde global. Horizontes Antropológicos, v. 17, n. 35, p. 257-296, jan./jun. 2011.

BRANDÃO, Ana Maria. Da sodomita à lésbica: o género nas representações do homo-erotismo feminino. Análise Social, v. 45, n. 195, p. 307-327, 2010.

CALLIGARIS, Contardo. Verdades de autobiografias e diários íntimos. Estudos Históricos, v. 11, n. 21, p. 43-58, 1998.

CAMARGO, José Francisco de. Crescimento da população no Estado de São Paulo e seus aspectos econômicos. São Paulo: IPE/USP, 1981.

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

DUARTE, Luiz Cláudio. Representações da virgindade. Cadernos Pagu, n. 14, p. 149-179, 2000.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

FREIRE, Maria Martha de Luna. Mulheres, mães e médicos: discurso maternalista em revistas femininas (Rio de Janeiro e São Paulo, década de 1920). 336f. Doutorado em História das Ciências e da Saúde pela Casa Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2006.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

GOMES, Angela de Castro (Org.). Escrita de si, escrita da História. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004.

GOMES, Ana Carolina Vimieiro. A emergência da biotipologia no Brasil: medir e classificar a morfologia, a fisiologia e o temperamento do brasileiro na década de 1930. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 7, n. 3, p. 705-719, set./dez. 2012.

GUZMAN, Júlio; IRIART, Jorge Alberto Bernstein. Revelando o vírus, ocultando pessoas: exames de monitoramento (CD4 e CVP) e relação médico-paciente no contexto da AIDS. Caderno de Saúde Pública, v. 25, n. 5, p. 1132-1140, 2009.

HERZLICH, Claudine. Saúde e doença no início do século XXI: entre a experiência privada e a esfera pública. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 14, n. 2, p. 383-394, 2004.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil. In: SÜSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia; AZEVEDO, Carlito (Orgs.). Vozes femininas: gênero, mediações e práticas de escrita. Rio de Janeiro: 7letras; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2003, p. 15-25.

LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

MARTINS, Ana Paula Vosne. Visões do feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2004.

MARTINS, André. Biopolítica: o poder médico e a autonomia do paciente em uma nova concepção de saúde. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 8, n. 14, p. 21-32, set. 2003/fev. 2004.

NASCIMENTO, Dilene Raimundo do et al. O indivíduo, a sociedade e a doença: contexto, representação social e alguns debates na história das doenças. Khronos, n. 6, p. 31-47, dez. 2018.

NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. As pestes do século XX: tuberculose e Aids no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2005.

POLLAK, Michel. Os homossexuais e a Aids: sociologia de uma epidemia. São Paulo: Estação Liberdade, 1990.

ROHDEN, Fabíola. Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001.

ROSENBERG, Charles; GOLDEN, Janet (Eds.). Framing disease: studies in cultural history. New Brunswick: Rutgers University Press, 1997.

SCHEFFER, Mario. Coquetel: a incrível história dos antirretrovirais e do tratamento da aids no Brasil. São Paulo: Huvitec: Sobravime, 2012.

SCOTT, Joan. A invisibilidade da experiência. Revista Projeto História, n. 16, p. 297-325, 1998.

SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação: hierarquias raciais e o papel do racismo na política de imigração e colonização. In: MAIO, Marcos Chor (Org.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/CCBB, 1996, p. 41-58.

SONTAG, Susan. A doença como metáfora. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.

SONTAG, Susan. AIDS e suas metáforas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

TAQUETTE, Stella. Adolescência feminina e vulnerabilidade às DST/Aids. In: TAQUETTE, Stella (Org.). Aids e juventude: gênero, classe e raça. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009, p. 29-40.

TRONCA, Ítalo. As máscaras do medo: leprAids. São Paulo: Editora da Unicamp, 2000.

VIANNA, Eliza da Silva. Aids por elas: experiências soropositivas de mulheres nos anos 1990. 234f. Doutorado em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2018.

VIANNA, Eliza da Silva; NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. Produz-se um contradiscurso: o Grupo Pela Vida RJ e SP na luta contra a Aids. In: BATISTA, Ricardo dos Santos; SOUZA, Christiane Maria Cruz de; SILVA, Maria Elisa Lemos Nunes da (Orgs.). Quando a História encontra a Saúde. São Paulo: Hucitec, 2020, p. 143-165.

VIGARELLO, Georges. História da beleza. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

Publicado
2021-04-28
Seção
Ciência, saúde e doenças no Brasil: abordagens históricas e contemporâneas