Quanto valem esses corpos? Moradia, pobreza e pandemia na cidade de São Paulo

Palavras-chave: Cidade de São Paulo, Modernidade, Doenças do progresso, Práticas médicas e de saúde pública

Resumo

Objetivamos identificar permanências históricas nas atuações dos governos municipais de São Paulo frente às epidemias e pandemias, considerando populações de moradias precárias e periféricas, em dois momentos: período de 1930 à 1970, e o primeiro ano da pandemia de Covid-19. Analisamos fontes jornalísticas e legislações em diálogo com a literatura existente sobre os períodos citados. O intenso processo de metropolização urbana, precarização das condições de moradia e de saneamento aprofundou as desigualdades sociais na cidade, a partir da alocação da população em determinados locais, das doenças que as abatiam, e da falta de acesso aos serviços médicos e de saúde, princi-palmente frente a epidemias. Em momentos de epidemias e pandemias, como a da COVID-19, os grupos mais vulneráveis têm reduzido seus corpos ao menor valor no jogo social, se tornando dispensáveis por parte da po-pulação e das autoridades de saúde pública, não incluídos adequadamente nas políticas assistenciais.

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Publicado
2021-04-28
Seção
Ciência, saúde e doenças no Brasil: abordagens históricas e contemporâneas